4. INTERNACIONAL 21.11.12

1. O PRESIDENTE-ASPIRINA
2. POR E-MAIL, NO!
3. TUDO SER COMO ANTES
4. A SOLUO PARA ISSO  UMA S
5. ESPECIAL  NO BERO DA PRIMAVERA RABE

1. O PRESIDENTE-ASPIRINA
Franois Hollande vinha tentando conter a crise na Frana com remdios paliativos. Agora, diz que vai usar o bisturi.
MARIO SABINO, DE PARIS

Salvar a Frana? Salvar a Frana? E quem vai tomar conta das minhas vacas enquanto isso? O presidente francas Franois Hollande, seis meses depois de ter sido eleito, est como o pai da herona Joana dArc ao falar sobre a filha na pea A Cotovia, de Jean Anouilh. Se tentar salvar a Frana do mesmo abismo que engoliu Grcia e Espanha, dando um basta no limite do cheque especial que h anos permite aos franceses trabalhar cada vez menos e gozar a vida cada vez mais, ele correr o risco de perder o controle de seu rebanho socialista. Se Hollande cuidar s de seus bovinos ideolgicos, a Frana vai para o brejo das naes da zona do euro em que a austeridade fiscal passou da condio de remdio amargo a veneno. O presidente vinha tentando fazer crer que medidas paliativas eram suficientes para manter a Frana a dois passos da beira do precipcio, sem cair nele. Passou a ser chamado, assim, de presidente-aspirina, quando o que o pas precisa neste momento  de um presidente-bisturi  corajoso o suficiente para fazer uma lipoaspirao no estado-foie gras que sufoca a economia.
     O socialista Hollande tem 58 anos e 1,70 metro de altura. A Frana tem doze sculos como nao,  a segunda economia da zona do euro e apresenta um nmero oficial de 3 milhes de desempregados, ou quase 11% da populao ativa. A taxa de desocupao entre jovens, em algumas das Zonas Urbanas Sensveis   desse modo que os franceses chamam as periferias mais pobres , ultrapassa 40%. De cada dez moas e rapazes de at 25 anos, quatro esto de braos cruzados. Hollande j falava nesse ltimo ndice com a conhecida indignao eleitoral dos polticos, mas no forneceu nenhuma indicao precisa para comear a resolver o problema aps assumir a Presidncia. Em relao ao desemprego em geral, a proposta mais concreta, digamos assim, veio do jornal satrico Sin Mensuel, que se saiu com a seguinte tirada: Trs milhes de desempregados. Seria preciso esteriliz-los. Seno, isso no vai parar nunca.
     O que a estatura relativamente baixa de Hollande tem a ver com sua atitude acetilsaliclica diante de um contexto que requer intervenes cirrgicas drsticas? Ele disse a seu bigrafo, o jornalista Serge Raffy, redator-chefe da revista semanal Nouvel Observateur, que sua altura, aqum da mdia francesa, somada ao fato de ele ter uma traseira rebaixada, faz com que seu ponto de equilbrio fique mais prximo ao cho. Resultado: quando praticava esportes, como futebol e rgbi ( estranho imaginar at que Hollande pudesse ser gandula de um jogo de rgbi), ele dificilmente caa. A observao, apesar do tom jocoso, leva a crer que ele tenha transferido essa confiana em sua traseira rebaixada para o campo da poltica. O presidente persevera em seu ponto de equilbrio, mesmo com uma taxa de desaprovao popular recorde, da ordem de 60%. E tome aspirina.
     Depois que assumiu a Presidncia, Hollande passou a referir-se a si prprio como um homem normal. A normalidade pode ser uma qualidade na Holanda  a terra natal dos ancestrais do presidente, que originou seu sobrenome  e nos pases escandinavos, onde governantes vo trabalhar de bicicleta e se comportam como cidados annimos. No na Frana. Para uma nao que pensa ser o centro do mundo e foi comandada por Luses, Napoleo Bonaparte e Charles de Gaulle, o presidente tem de exibir aquele queixo de esttua que o distingue do resto dos mortais. De Gaulle, o mais megalomanaco da Repblica, dizia que a Frana no pode ser a Frana sem a grandeza.
     Ainda que Hollande seja normal, no sentido de ser comum,  imperioso aparentar o contrrio aos olhos da opinio pblica  o que no quer dizer, fique claro, aparecer fantasiado de Napoleo. Um pouco de queixo de esttua e uma pitada de assertividade so o bastante. Ento, porque enfatizar a sua normalidade? Foi a maneira que o presidente encontrou para diferenciar-se, em termos de imagem pblica, de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, dono de uma personalidade extremamente forte. Muito ativo, Sarkozy mostrava a toda hora que era ele quem mandava. Hollande, por sua vez, quer transmitir uma imagem mais serena, disse a VEJA Grard Grunberg, diretor de pesquisa da Sciences Po. No est dando certo, em especial em meio  urgncia da presena de um presidente-bisturi. A LExpress, a maior revista semanal de informao do pas, chegou a estampar, na capa de sua penltima edio, a pergunta: H realmente um presidente na Frana?.
     A reao do governo socialista ao excesso de normalidade palaciana e  overdose de aspirina na economia veio na semana passada. Na sua primeira entrevista coletiva, Hollande tentou mostrar-se mais presidencial. Afirmou que vai, sim, usar o bisturi, depois de passar seis meses esgrimindo a demagogia. A demagogia: baixou um imposto de 75% sobre quem tem rendimentos de mais de 1 milho de euros por ano e aumentou os tributos sobre fortunas. A medida, porm, atinge apenas 1500 pessoas, no primeiro grupo (algo como o total da torcida do time paulista da Portuguesa de Desportos), e 260.000 cidados, no segundo. A punio aos ricos golpeou menos de 0,5% da populao, mas serviu para pretextar ao Robin Hood do Eliseu uma paulada fiscal na classe mdia poupadora, cujos ganhos com investimentos podero ser taxados em at 60%, e outra nos aposentados, de quem o estado passou a garfar umas lasquinhas.
     Hollande prometeu em sua entrevista coletiva cumprir as medidas propostas no relatrio sobre competitividade encomendado por seu governo ao executivo Louis Gallois. Para reanimar a economia francesa, que se encontra praticamente estagnada, incapaz de fazer frente  mquina exportadora alem, e diminuir o desemprego, Gallois props 22 medidas. A principal  um corte drstico nos gastos pblicos, que somam 57% do produto interno bruto, os maiores da Europa. O presidente anunciou uma meta de 12 bilhes de euros ao ano, at o fim de seu mandato, em 2017. H dvidas sobre se ele vai cumprir o que prometeu.
     Recomenda-se a Hollande, alm de adotar um queixo de esttua, confiar menos no seu ponto de equilbrio e deixar de lado os agrados a seu rebanho ideolgico, para livrar a Frana de uma estagnao cujos danos seriam reparveis somente a longo prazo. Teme-se que a boa notcia de que o pas teve um crescimento no ltimo trimestre de 0,2%, quando se esperava zero ou menos que isso, estimule o presidente a continuar empregando apenas medidas-aspirina e a deixar no plano do discurso as iniciativas preconizadas pelo relatrio Gallois.  preciso, contudo, que ele supere sua averso ao bisturi. Ideolgica e talvez psicolgica. O pai do presidente era um mdico-cirurgio que tratava os dois filhos e a mulher como um dspota. Depois de fazer dinheiro com especulao imobiliria, ele tentou ser eleito duas vezes conselheiro municipal de Rouen, a cidade natal de Hollande, e nutria simpatia pelo marechal Ptain, o colaboracionista-mor dos invasores alemes. A lembrana do terrvel pai-cirurgio pode ter algo a ver com a averso aos cortes na carne. Eis a um tema interessante para mais um livro de um psicanalista francs. 


2. POR E-MAIL, NO!
O diretor da CIA David Petraeus perdeu o posto por flertar on-line com a amante ciumenta. A histria  to mirabolante que fez surgir o boato de que por trs de tudo est o recente atentado contra o consulado americano na Lbia.
NATHAUA WATKINS

     A vigilncia a que os americanos submetem suas autoridades com frequncia alcana o paroxismo. A crena generalizada  que, alm de ser bom governante ou bom general,  preciso ter vida privada acima de qualquer suspeita. Com isso, assuntos que em princpio deveriam ser apenas da conta de marido e mulher facilmente ganham o noticirio e formam turbilhes polticos. O mais recente escndalo de adultrio, entre o ento diretor da agencia central de inteligncia (CIA), o general David Petraeus, e sua bigrafa, Paula Broadwell, ambos casados, levou  renncia do general h duas semanas e, por vias tortuosas,  suspenso da promoo do comandante da Organizao do Tratado do Atlntico Norte (Otan) no Afeganisto, John Allen. A primeira hiptese para explicar a histria  que houve exagero ao tratar em pblico um assunto essencialmente privado. A segunda, ainda no comprovada,  que, em suas aventuras sexuais fora do casamento, Petraeus e Allen teriam vazado informaes, secretas e falhado em cumprir com suas funes. Sobre as suspeitas de que o caso extraconjugal de Petraeus, de 60 anos, teria afetado a sua disposio para reagir da maneira correta ao atentado contra o consulado em Bengasi, na Lbia, no qual morreram quatro americanos, o presidente americano Barack Obama afirmou, na semana passada: No h evidencias de que o episdio tenha representado uma ameaa  segurana nacional.
     A confuso comeou quando a socialite Jill Kelley, de 37 anos, reclamou ao amigo e agente do FBI Frederick W. Humphries II que estava sofrendo ameaas de Paula Broadwell por e-mail. O contedo das poucas mensagens divulgadas at agora s revela um bate-boca rotineiro entre rivais. Apesar de sua condio de amante (Petraeus  casado com Holly, 63 anos), Paula no aceitou a aproximao de uma terceira mulher. Afaste-se do meu homem, escreveu ela a Jill. Seu marido sabe que voc tem tocado Petraeus por baixo da mesa?, continuou. Ao entrar na privacidade das moas, o FBI descobriu que Paula e o general Petraeus trocaram vrias mensagens. Supreendentemente, o chefe do servio de espionagem americano usava uma conta com pseudnimo no servio de mensagens Gmail, do Google, facilmente rastrevel. O general renunciou ao cargo na CIA na sexta-feira 9, em meio a rumores de que suas escapadas o teriam deixado vulnervel a chantagens. A mesma investigao revelou que John Allen trocou flertes on-line com Jill.
     As duas conheceram Petraeus na ocasio em que ele j era um general do Exrcito com atuao de destaque no Iraque. Em 2008, Paula comeou a escrever uma tese sobre o militar na Universidade Harvard. Dois anos depois, ela props que o texto se transformasse em livro. A bigrafa visitou o general no Afeganisto seis vezes. Sua presena era constantemente notada pelos recrutas. Paula o acompanhava em longas corridas e o chamava de Peaches (pssegos, em ingls), por causa de suas bochechas coradas. Jill, por sua vez, diz que conheceu o militar h cinco anos, quando fazia trabalho voluntrio na Base MacDill da Fora Area, na Flrida. Casada, me de trs filhos e gmea idntica de uma morena igualmente voluptuosa, ela recebia em sua casa oficiais para festas, famosas pela abundncia dos comes e bebes. Seus dotes como anfitri lhe renderam o ttulo de consulesa honorria da Coreia do Sul e alguns processos legais por dvidas.
     Traies no alto escalo das foras de segurana no so inditas. Allen Dulles, um dos primeiros diretores da CIA, era conhecido pela grande quantidade de namoradas que mantinha fora do casamento. Sua irm calculou que ele teve pelo menos 100. Dwight Eisenhower, que comandou as tropas aliadas na II Guerra, teve um romance com sua motorista, a irlandesa Kay Summersby. A relao continuou no perodo em que Eisenhower ocupou a Presidncia e, apesar da falta de discrio, no atrapalhou sua carreira.
     As primeiras alegaes de que seu affair com Paula poderia deixar Petraeus vulnervel a chantagens parecem descabidas. Hoje h uma intolerncia maior com aqueles que cometem adultrio, embora nunca na histria dos Estados Unidos um oficial tenha sido chantageado por isso, explica o historiador ingls Rhodri Jeffreys-Jones, autor do livro In Spies We Trust (Em Espies Ns Acreditamos). O maior rescaldo da polmica deve ser a apurao sobre a atuao da CIA na Lbia. Dos quatro mortos no atentado de setembro, dois trabalhavam para a agncia, assim como a maioria dos oficiais que foram evacuados de um dos prdios atacados. Petraeus no compareceu  cerimnia que recebeu os corpos dos americanos, e verses contraditrias sobre o episdio foram dadas pela CIA e pelo Departamento de Estado. Para complicar, Paula disse em uma palestra, no ms passado, que o anexo do consulado em Bengasi era usado como priso de terroristas. A invaso teria sido uma maneira de resgatar os detidos. A lio do episdio  que, se algum quiser ter uma parceira fora do casamento, melhor no fazer nada por e-mail, diz Arthur Hulnick, professor de relaes internacionais da Universidade de Boston e ex-analista da CIA. Fica a dica para outros espies e generais.

ELES NO RESISTIRAM
As conexes misteriosas de Jill Kelley, a sedutora socialite da Flrida que derrubou o diretor da CIA e ps em risco a carreira do comandante da Otan no Afeganisto

JILL KELLEY - A socialite de 37 anos pediu ao agente do FBI Frederick Humphries que investigasse os e-mails ameaadores que recebeu de Paula.
PAULA BROADWELL - A bigrafa e amante de Petraeus  casada e tem dois filhos. Enviou ameaas por e-mail a Jill porque acreditava que ela estava dando em cima do ex-general.
DAVID PETRAEUS - Pediu demisso da direo da CIA em 9 de novembro alegando um conflito tico por ter tido um caso extraconjugal.
JOHN ALLEN - O general, que iria assumir o comando da Otan na Europa, teve a promoo suspensa enquanto a sua relao com Jill  investigada.
FREDERICK HUMPHRIES - A investigao do FBI descobriu que Jill flertava com o general Allen por e-mail e que Paula era amante de Petraeus. Humphries foi afastado do caso porque enviou a Jill fotos de si mesmo sem camisa.


3. TUDO SER COMO ANTES
A nova liderana da China tem desafios econmicos srios a enfrentar, e nenhuma sede de reformas polticas.

     As trocas de poder na China so conduzidas para dar a mxima sensao possvel de continusmo. O engenheiro Xi Jinping, anunciado como o novo presidente na quinta-feira passada, e o economista Li Keqiang, o prximo primeiro-ministro, so rostos conhecidos. Desde 2007, os dois fazem parte do Comit Permanente do Politburo, rgo supremo do Partido Comunista e que efetivamente governa o pas. Suas decises, a partir da posse em maro de 2013, s sero tomadas por consenso, e eles podem ficar no cargo por at dez anos. Seus sucessores sero escolhidos entre os sete membros do comit, cuja nova composio acabou de ser anunciada. So mudanas a passo de urso panda. A grande interrogao  se elas sero capazes de dar conta das transformaes sociais e econmicas que correm  velocidade de tigre. A China, que em 2010 se tornou a segunda maior economia do mundo graas a suas fbricas movidas a mo de obra barata e voltadas para a exportao, ter de mudar substancialmente seu modelo econmico. Para continuar crescendo e tirando milhes de habitantes da pobreza, a soluo ser vender mais para o mercado interno. Esta ser a transformao econmica mais importante desde a abertura econmica de Deng Xiaoping, no fim dos anos 70, diz o economista Stephen Roach, ex-presidente do banco Morgan Slanley na sia e professor da Universidade Yale.
     No terceiro trimestre deste ano, a economia cresceu 7,4%. Embora seja um ndice para comemorar em qualquer outro pas,  metade da expanso de cinco anos atrs. O pas ainda sente os efeitos da queda brutal da demanda por seus produtos, um reflexo da crise econmica global de 2008. Seus maiores mercados, como os Estados Unidos e os pases europeus, no compram mais como antes. Alm disso, a China tambm no  a fabrica barata que costumava ser. A demanda incessante por profissionais reduziu a mo de obra disponvel. Como resultado, os salrios aumentaram. Entre 2001 e 2011, a remunerao mdia dos chineses quadruplicou. Seria uma boa notcia se eles tivessem disposio para gastar. Contudo, os cidados tradicionalmente preferem guardar dinheiro e garantir a prpria aposentadoria, uma vez que o estado no lhes d esse benefcio.
     No mbito poltico, no h razes para esperar por reformas democrticas. Quem quiser achar alguma mudana na China pode olhar para a esposa de Xi, a futura primeira-dama Peng Liyuan. Cantora de sucesso, ela cultiva um estilo espalhafatoso e o gosto por maquiagem pesada. Peng poderia deixar um pouco mais colorida a sisuda cpula chinesa. Mas  melhor no esperar discursos ao estilo de Michelle Obama. Desde 2007, Peng vem abandonando os palcos e nunca fala de poltica. Na lenta sucesso chinesa, no pode haver surpresas. 
YATIANA GIANINI


4. A SOLUO PARA ISSO  UMA S
Israel bombardeou Gaza para conter os ataques do Hamas. Enquanto o grupo estiver no poder, no haver paz possvel.

     Ao diminuir a velocidade do seu carro quando se aproximava de uma esquina na Faixa de Gaza, na quarta-feira passada, o palestino Ahmed Jabari foi atingido por um mssil israelense. A preciso do disparo foi tal que nem o motor nem as rodas foram danificados. O veculo seguiu seu caminho por mais alguns metros, transformado em uma bola de fogo. Jabari era um dos terroristas mais procurados por Israel. Ele foi o mentor do sequestro do soldado israelense Gilad Shalit, que ficou cinco anos em cativeiro, e um dos arquitetos do golpe de estado de 2007 em Gaza, em que o Hamas perseguiu e matou oponentes do partido secular Fatah. Tambm partia de Jabari a ordem para que os militantes do Hamas jogassem foguetes contra Israel. Desde o incio do ano, mais de 800 foram disparados contra o pas. A eliminao de Jabari foi acompanhada do bombardeio de bases de lanamento de foguetes e armazns de armas, muitos deles escondidos em prdios onde moram civis. Duas dezenas de palestinos, inclusive crianas, morreram. O Hamas revidou matando trs israelenses em uma casa atingida por um de seus foguetes, cujo alcance  cada vez maior  uma cortesia do Ir, que patrocina o grupo. Trs deles caram perto de Tel-Aviv e um, de Jerusalm. Israel convocou 16.000 reservistas para o caso de precisar invadir o territrio palestino.
     Se as provocaes do Hamas so incessantes, por que Israel resolveu agir s agora? Uma motivao so as eleies do prximo dia 22 de janeiro. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu espera se beneficiar dos ataques, apoiados pela maioria da populao. A morte de Jabari pode ajudar a campanha do premi da mesma forma que o assassinato do terrorista Osama bin Laden, em 2011, permitiu ao americano Barack Obama se apresentar como um presidente forte. O ataque a Gaza tambm poderia compensar a recente desmoralizao internacional de Netanyahu. O premi pediu apoio para bombardear as instalaes nucleares do Ir, mas ficou falando sozinho. Com a reeleio de Obama, ele teve a certeza de que isso no mudar. Os bombardeios provocaram rusgas principalmente com o Egito. O pas  governado pela Irmandade Muulmana, o grupo islamista que deu origem ao Hamas na dcada de 80. As relaes entre Israel e Egito so regidas por um tratado de paz assinado em 1979, em que os egpcios se comprometeram a vigiar a passagem entre Gaza e a Pennsula do Sinai, seu territrio. A regio  a porta de entrada das armas para o Hamas e est infestada
de terroristas, agora com a conivncia dos governantes egpcios. Mais do que nunca, Israel s deixar de ser atacado quase diariamente a partir da Faixa de Gaza quando a ditadura do Hamas no territrio for apeada do poder.


5. ESPECIAL  NO BERO DA PRIMAVERA RABE
Dois anos depois de iniciarem os protestos que varreram o Oriente Mdio, as foras modernizantes e seculares da Tunsia tentam conter o avano dos radicais.
DIOGO SCHELP, DE SIDI BOUZID
FOTOS PAULO VITALE

     As moscas se aglomeram sobre os pssegos carcomidos na barraca de feira em Sidi Bouzid, a cidade tunisiana onde, em 17 de dezembro de 2010, o vendedor de frutas Mohamed Bouazizi ateou fogo ao prprio corpo em protesto por ter sido proibido de trabalhar como ambulante. O gesto desesperado desencadeou uma onda de manifestaes de rua e acabou por derrubar o ditador do pas, Zine El Abidine Ben Ali, no poder havia 23 anos, um feito que incentivou cidados de outras naes do norte da frica e do Oriente Mdio a tentar o mesmo. Ao cabo de alguns meses, os tiranos de longa data da Lbia, do Egito e do Imen tinham cado e os primeiros massacres do que viria a se tornar uma guerra civil com contornos sectrios comeavam a acontecer na Sria. Dois anos depois, no marco zero da chamada Primavera rabe, os fruteiros Hedi Bouzidi, de 19 anos, e Khalifa Hamdi, de 26, no pareciam muito entusiasmados com as promessas de transio democrtica na Tunsia. Para eles, o martrio de Bouazizi foi em vo. Aqui, nada mudou, diz Hamdi, com um amplo movimento com os braos cujo nico efeito foi levantar por fraes de segundo a nuvem de moscas sobre suas frutas. O desemprego no diminuiu e o preo das coisas no para de crescer, completa Bouzidi. Enquanto ele falava, um grupo de rapazes barbudos chamou Hamdi de lado. Eram salafistas, adeptos da interpretao radical do Isl e conhecidos por impor sua ideologia com violncia. Eles no queriam que os vendedores de frutas conversassem com jornalistas ocidentais. Hamdi voltou  sua barraca e, constrangido mas se esforando para parecer simptico, sugeriu que os visitantes fossem embora. Sim, algo mudou na Tunsia. A represso do estado policialesco foi substituda pela coao religiosa.
     Para muitos tunisianos, no era para ser assim. Se existe um pas rabe em que a almejada transio para a democracia poderia dar certo,  a Tunsia, com seus parcos 10 milhes de habitantes. Somos um exemplo para a regio. Se no formos bem-sucedidos, haver caos no mundo rabe, porque todos vo dizer: Vejam, no funciona nem na Tunsia, diz Moncef Marzouki, presidente do governo de transio (veja a entrevista na pg. 116). H, no pas, as condies ideais de temperatura e presso para essa experincia poltica. A sociedade na Tunsia  mais homognea e mais moderna do que na maioria das naes rabes. Na Sria, por exemplo, as lealdades na guerra civil em curso obedecem  lgica da fragmentao religiosa do pas. O ditador Bashar Assad tem o apoio das minorias alauita, crist e drusa, enquanto os rebeldes so quase todos sunitas. Na Tunsia, ao contrrio, esse fator de tenso  inexistente. Os muulmanos sunitas representam 98% da populao. O pas tambm est livre de rixas tribais como as que, na Lbia ps-Muamar Kadafi, tm pulverizado o poder do governo secular e democraticamente eleito.
     A classe mdia, elemento essencial em qualquer democracia,  maior e mais instruda na Tunsia do que, por exemplo, no Egito. A proximidade com a Europa  a Itlia fica a menos de 200 quilmetros de distncia e diversas empresas francesas e alems tm fbricas instaladas na Tunsia, que tambm  um destino turstico popular entre os europeus  deu aos cidados, em especial os que vivem na capital, Tnis, e nas outras cidades do litoral mediterrneo, um estilo de vida mais secular e tolerante do que o encontrado no mundo rabe em geral. A Tunsia foi o primeiro pas de maioria muulmana a pr em vigor, em 1957, uma lei que proibia algumas prticas retrgradas em relao s mulheres, como a poligamia e o casamento forado. Em 1965, foi legalizado o aborto.
     O ltimo e mais importante elemento que poderia contribuir para uma transio tranquila para a democracia  o fato de que a Tunsia no tinha em seu territrio uma organizao islmica forte, capaz de avanar no vcuo de poder aps a queda do ditador. No Egito, havia a Irmandade Muulmana. Apesar de excludo durante dcadas do jogo poltico, o grupo conseguira montar uma rede de assistncia social que se provou essencial para a vitria nas primeiras eleies parlamentares e presidenciais livres no pas, realizadas neste ano. Com um presidente, Mohamed Mursi, sado das fileiras da Irmandade Muulmana, e com uma Assembleia Constituinte que se prepara para aprovar uma Carta Magna baseada na sharia, a lei islmica, o Egito est cada dia mais perto de se tornar um estado em que a religio se sobrepe a todas as outras instituies. J na Tunsia, durante o regime de Ben Ali, os defensores de um estado islmico estavam quase todos presos ou exilados. Os lderes do Ennahda, uma organizao com ideologia similar  da Irmandade Muulmana, viviam havia anos asilados na Europa. Quando Ben Ali fugiu com sua famlia para a Arbia Saudita, em 14 de janeiro de 2011, acreditava-se que o Ennahda seria capaz de angariar o apoio de no mximo 25% da populao em uma eventual eleio. Por isso, ningum temia os islamistas. Meses depois, o Ennahda ganhou 40% das cadeiras no Parlamento que se encarregaria de montar um governo de transio e de redigir uma nova Constituio. Entre os que hoje ocupam cargos altos nos ministrios, h at ex-exilados que eram constantemente monitorados pela Interpol por suspeita de terrorismo.
     A popularidade dos islamistas na Tunsia foi subestimada porque se confiou excessivamente nas aparncias. Em comparao com outros pases muulmanos, viam-se nas ruas da Tunsia poucas mulheres de vu e no se rezava fora das mesquitas. O circulo social em que eu vivia no me permitia perceber quo conservadora  a nossa sociedade, diz a estudante universitria Marwa Derbel, que participou dos protestos em Tnis contra Ben Ali em janeiro de 2011 e, como muitos outros jovens seculares, se diz estarrecida com a guinada islmica no pas. Hoje, na capital, quase a metade das mulheres cobre a cabea em pblico. Nas cidades do interior, raras so as que se expem com os cabelos ao vento. Isso significa que os tunisianos se tornaram fundamentalistas da noite para o dia? No. As vises ferrenhas do Isl estavam apenas ocultas. Afinal, nos tempos de Ben Ali, as expresses pblicas de religiosidade eram no apenas desencorajadas, como punidas. O uso do vu islmico era proibido em prdios pblicos. Homens que exibissem um hematoma redondo na testa, sinal de quem reza at mais do que cinco vezes por dia a Al, frequentemente eram levados  delegacia para ser interrogados. Esse secularismo forado, imposto pelo estado, apenas serviu para represar uma viso de mundo que, ao ruir a barragem poltica, inundou a vida nacional.
     Antes mesmo da queda de Ben Ali, comeou a penetrar nos lares tunisianos uma verso do Isl em grande parte extica para a cultura local. Esses novos valores chegavam pelas parablicas, por meio de canais de TV abertos da Pennsula Arbica, entre os quais a Al Jazira, do Catar. Em um pas em que 73% das mulheres das classes mais baixas so donas de casa que passam em mdia trs horas por dia diante da TV, a Al Jazira e diversos canais religiosos do Oriente Mdio acabaram tendo um impacto social tremendo, diz Hassen Zargouni, diretor-geral do Sigma, um instituto de pesquisas em Tnis. A influncia desses canais, segundo Zargouni, ajudou a aumentar entre as tunisianas a aceitao da poligamia e do vu completo, que cobre inclusive o rosto, entre outras prticas prprias dos pases da Pennsula Arbica. 
     O Ennahda soube se aproveitar dessa guinada islmica fazendo um jogo duplo. De um lado, vendeu-se como um grupo islmico moderado ao montar um governo de coalizo com dois partidos seculares e ao se distanciar dos mtodos violentos dos salafistas. De outro, pressionou para incluir na nova Constituio artigos de inspirao islmica, como a referncia  sharia como fonte das leis, a proibio  blasfmia e a afirmao de que as mulheres so complementares aos homens. Nada disso vai passar, garante a deputada secular Mabrouka Mbarek. A estratgia do Ennahda  apresentar o mximo possvel de propostas conservadoras, para conseguir o mnimo, completa Mabrouka. A Constituio ser ratificada em fevereiro de 2013. As eleies presidenciais esto marcadas para quatro meses depois. Ainda que a forte elite secular da Tunsia consiga conter os legisladores islamistas ditos moderados, no h garantia de que no futuro prximo o pas esteja imune a medidas autoritrias de cunho religioso.  comum ouvir de tunisianos seculares que a nica diferena relevante entre o Ennahda e os salafistas  a rapidez com que eles querem implantar o estado islmico. Os prprios salafistas, alis, tendem a concordar com essa afirmao. O governo do Ennahda  muito leniente com os atos de violncia dos salafistas, o que reala as suspeitas de que sejam apenas dois lados da mesma moeda, diz Abdessatar Ben Moussa, presidente da Liga Tunisiana de Direitos Humanos.
     A mo leve com os radicais islmicos ficou evidente em setembro, quando eles incendiaram a embaixada americana em Tnis com a desculpa de que protestavam contra um filme ofensivo a Maom feito nos Estados Unidos. Poucos dias antes, em Sidi Bouzid, o marco zero da Primavera rabe, um grupo de oitenta salafistas destruiu o bar de um hotel que vendia bebidas alcolicas, proibidas pelo Coro. Eu no achava que o resultado da revoluo seria esse, diz Mohsen Bouzidi, gerente do hotel. Quando o ditador caiu, pensei que teramos liberdade. No laboratrio da revoluo, as foras autoritrias ganham espao da liberdade. O mundo observa atento.

OS SECULARES - Por causa da censura que existia nos meios de comunicao nacionais, foi por meio do Facebook e do canal Al Jazeera que Marwa Derbel, de 21 anos, estudante de francs, e Abdenahmen Ben Chaaben, de 24, que cursa histria, ficaram sabendo dos protestos contra o regime em Sidi Bouzid. Ambos se juntaram s manifestaes de rua em Tnis, em que se pedia liberdade poltica e o fim da corrupo que envolvia a famlia de Ben Ali. Eu no imaginava que os islamistas do Ennahda voltariam do exlio com tanta fora, diz Marwa. Eles usam as mesquitas para jogar o povo contra os seculares, diz Ben Chaaben.

A ISLAMISTA MODERADA - Quando Safa Belghith, de 23 anos, decidiu usar o vu islmico, h nove anos, o hijab era quase um manifesto poltico. Alm de ser proibido em prdios pblicos, as mulheres que o vestiam tinham dificuldade para conseguir emprego. Safa chegou a ser levada a uma delegacia, onde foi obrigada a assinar um documento comprometendo-se a no cobrir mais a cabea. Desde a queda de Ben Ali, ela milita no Ennahda. Se algo pode ser chamado de Isl moderado,  o que o partido defende, diz Safa. Ao contrrio dos salafistas, sou a favor da democracia e no acho que se deva impor o Isl a todo o mundo.

O SALAFISTA - O rapaz com pinta de rapper no quer saber de falar do futuro de seu pas. A Tunsia no existe, diz Skander Boughanmi, de 26 anos, operrio da construo civil. Para ele, deve-se voltar a ter um califado que inclua todo o Oriente Mdio e o norte da frica. Deveria ser tudo unido, como nos tempos de Maom, diz ele. Boughanmi no aceita meios-termos quando se trata de aplicar a lei islmica. O nico lugar onde se aplicou a sharia corretamente foi no Afeganisto sob o Talib, mas infelizmente os americanos estragaram tudo, diz. Ele garante que  um salafista pacfico, apesar de j ter sido preso em agosto, acusado de promover um quebra-pau numa palestra.

PIOR DO QUE NA DITADURA - Em junho passado, uma exposio da qual a artista plstica Nadia Jelassi participou com sua obra que critica o apedrejamento de mulheres adlteras foi invadida por salafistas, que agrediram alguns artistas, acusando-os de blasfmia. Os protestos dos islamistas duraram dias e provocaram a morte de uma pessoa. Em vez de levar os arruaceiros  Justia, a promotoria pblica acusou Nadia de distrbio da ordem pblica, um crime com punio de at seis anos de priso. No tenho saudade de Ben Ali, mas nem durante a ditadura eu fui incomodada por causa da minha arte dessa maneira, diz Nadia.

O PATRULHEIRO DA BLASFMIA - O xeque Abdelfattah Moirou  vice-presidente do partido islamista Ennahda, nascido de um movimento clandestino fundado por ele e por Rashid Ghannouchi na dcada de 80. Para ele, o Ennahda e os salafistas tm projetos antagnicos. H correntes radicais na Tunsia, mas so resultado da grande liberdade que desfrutamos hoje, diz Mourou. Apesar do discurso talhado para apresentar suas credenciais moderadas, Mourou defende a criao de leis antiblasfmia internacionais, nada mais do que um instrumento para censurar a liberdade de expresso no Ocidente. No h liberdade de expresso absoluta em nenhum lugar, diz.

ULTIMATE FIGHTING ISLMICO - Mohamed Moncef Ouergbi passou dezesseis anos na cadeia e seis em priso domiciliar, segundo ele por rezar a Al, e no a Ben Ali. Ou seja, era acusado de ser um militante islmico. No xadrez, ele criou o zamaqtel, uma arte marcial islmica. Um dia depois da queda do regime, Ouerghi abriu sua primeira academia. As apresentaes de seus alunos so muito populares em encontros do grupo salafista Ansar ai Sharia. No apenas a ideologia, mas tambm os movimentos da modalidade so inspirados no Coro, diz Ouerghi, antes de fazer uma demonstrao de estrangulamento em sua mulher, Norma.

OS TUNISIANOS QUEREM DEMOCRACIA
O presidente da Tunsia, Moncef Marzouki, foi eleito em dezembro de 2011 pela Assembleia Constituinte como parte da coalizo entre o Ennabda e dois partidos seculares. Mdico, ele comeou a atuar em entidades de defesa dos direitos humanos na dcada de 70. Suas funes so as de um chefe de estado. A chefia de governo  exercida pelo primeiro-ministro Hamadi Jebali, um islamista.

Como o senhor avalia a transio poltica no pas? 
Estamos indo bem, apesar de alguns problemas. Descobrimos que, quando a represso acaba, brotam de dentro da sociedade seus piores aspectos, assim como os melhores. Entre os melhores posso citar o desejo das pessoas de ter democracia e de adotar valores de direitos humanos. Mas tambm descobrimos que temos em nossa sociedade um lado negro, o dos salafistas. A Tunsia  um laboratrio.

O que explica o crescimento do movimento salafista? 
Os salafistas pertencem a uma parcela da populao que foi abandonada por anos  ignorncia e  pobreza. Eles esto reclamando seus direitos, mas o fazem com sua prpria linguagem, que por acaso  de fundo religioso. Por isso, no acredito que o uso da fora policial seja a soluo para esse desafio. Podemos ter uma revoluo dentro da revoluo se no resolvermos os problemas econmicos e sociais do pas o mais rpido possvel.

A afirmao de que o Ennahda  um partido islmico e democrata no  uma contradio em termos?
O Ennahda quer que haja o reconhecimento de que este  um pas muulmano, que aceitemos os valores do Isl como sendo to importantes quanto os ocidentais. De resto, eles concordam em ter um sistema democrtico.


